[ #TrueStory ] O cara novo... #6

Minha primeira reação ao ouvir aquilo da boca do Gustavo foi raiva.
E não estou falando de uma raivinha.
To falando que virei a Carminha.




Vocês podem não entender, mas eu já passei por muita coisa nessa vida.
Eu só tenho vinte anos, mas poderia ter estrelado Carrie, A Estranha, no papel principal.
As crianças eram más comigo na escola.
Me excluíam, escondiam meus livros, rabiscavam meu caderno, e sentavam longe de mim no almoço.
E sabe o que eu fiz pra merecer tudo isso?
Absolutamente nada.
Eu era quieta, desenhava, sentava na frente e tirava boas notas.
Meu crime foi esse.


Até entrar na universidade, meus relacionamentos eram tipo com amigos que se apaixonavam por mim.
Amigos com quem eu, ÚNICA MENINA, jogava nos Videogames e Lan Houses.
Eu cresci com homens, mas os caras da escola eram monstros pra mim.
Eles me torturavam.
E o Gustavo era como eles.
Grande, bonito e popular.


Não que eu ficasse com caras feios, magricelas e excluídos como eu, mas depois que entrei na universidade e comecei a me valorizar como mulher, ficando forte suficiente pra enfrentar quem me tirava do sério, eu comecei a escolher com quem eu ficava, não ser mais escolhida.
E eu gosto dos tipos roqueiros, com pinta de problemas, mas que têm sorrisos bonitos, e são caras legais.
Os pseudo-badboys que as meninas sonham.
Eu gosto deles, e eles gostam de mim.




O Gustavo não é como eles.
E eu não queria admitir, mas tenho medo disso.
Por que ele, o tipo de cara que fazia piadas maldosas comigo na escola, queria ficar comigo agora?


Oh, Deus!
Eu quis vomitar.
Quando ele me disse aquilo eu revivi todos os pesadelos que eu lutei tanto pra enterrar.
Eu não queria ouvir mais nada.
Depois de uma risada histérica que acabou num soluço, cobri a boca, horrorizada, e fui embora.
É, eu o deixei plantado bem ali, voltei pra biblioteca, apanhei minhas coisas e fui pra casa.


Eu não estava pronta praquilo.
Fiquei doente.
Passei o resto do dia de cama, e dormi.
Acordei com o meu celular tocando bem debaixo de mim, e atendi sem nem olhar para a tela.
Era a Priscila.


Priscila: Hey, o que aconteceu?
Eu: To em casa, doente.
Priscila: Doente? De quê?
Eu: Não sei... Acho que comi alguma coisa estragada.
Priscila: Então eu sinto muito, amiga, mas você vai ficar pior.
Eu: O que foi?
Priscila: O teu monitor de Psiquiatria, o bonitão, me tirou da aula de Primeiros Socorros pra pedir pra eu te ligar.




Eu: O... quê...!?
Priscila: To falando sério. O cara interrompeu a minha aula, me chamou e pediu pra eu te dar um recado.

AH DEUS! AH DEUS! AH DEUS!


Eu: Que recado?
Priscila: Ele disse que sente muito.
Eu: E o quê mais?
Priscila: Nada mais. Só isso. Ele só sente muito. Agora pode me dizer o que está acontecendo?


Não, eu não podia, por que nem eu mesma sabia o que estava acontecendo.
Consegui enrolar a Priscila com uma desculpa esfarrapada qualquer que nem mesmo me lembro, e fiquei ali, deitada no escuro sem conseguir dormir o resto da noite imaginando o rosto do Gustavo dizendo: "Eu sinto muito" pra mim, uma e outra vez.
Um milhão de vezes.
Tantas que eu não aguentei e saí da cama.
Me troquei e disse á minha mãe que ia na casa de uma amiga e voltava rapidinho.


Estava frio pra caramba lá fora, e assim que cheguei ao prédio onde o Gustavo mora que eu descobri por um acaso um dia quando voltava da universidade e vi ele entrando, começou a chover.
Chamei na portaria e o porteiro abriu pra mim.

Porteiro: Moça, está muito frio aí fora, e muito tarde. Tá procurando alguém?
Eu: Tô. Gustavo... *eu não sabia o sobrenome*
Porteiro: Gustavo de quê?
Eu: Tem mais de um aqui?!
Porteiro: Não, mas eu não posso deixar a senhorita subir se não conhece o inquilino.
Eu: Mas eu conheço ele. Só não sei o sobrenome, tá? Escuta, pode chamar ele pra mim? Não vou subir. Só quero falar com ele. Pode até ser aqui mesmo.

O porteiro ficou desconfiado, mas acabou interfonando pro apartamento do Gustavo e disse que uma garota estava ali na portaria esperando por ele.
Eu ouvi quando ele perguntou: "É uma menina loirinha, com cara de brava?"
O porteiro olhou pra mim e confirmou, então ele deu permissão pra eu subir.


Hmmmm


Ele estava esperando na porta quando eu cheguei no topo da escadaria.
Vestia um jeans velho, desbotado, uma regata branca e estava descalço.
Seu olhar, diferente do que eu imaginei que seria, era nervoso, quase tenso.


Eu parei há um metro dele, de pé no corredor, e falamos ao mesmo tempo.

Eu: Eu queria...
Ele: Eu só...


Nenhum de nós riu.


Ele: Você quer entrar?
Eu: Não, não. Eu só... Eu vim saber uma coisa.
Ele: O quê?
Eu: Por que você disse que sentia muito?


Ele ficou muito tempo quieto, só olhando pra mim.


Ele: Por que eu acho que assustei você, e eu não queria isso. Eu não devia ter dito aquilo daquele jeito. Eu fui um idiota. 
Eu: Não... não foi culpa sua. Eu só não estava pronta pra ouvir aquilo.
Ele: Você... está pronta agora?


Meu coração martelou na boca, e o Gustavo não esperou pela minha resposta.
Deu um passo para mim e estendeu as mãos, me segurando delicadamente pelos ombros.
Não olhei pra ele.


Ele: Eu quero ficar com você, Nayla.


E antes que eu pudesse pensar e dizer "sim" ou "não", ele segurou o meu rosto, e levantou o meu queixo.
No segundo seguinte a sua boca estava sobre a minha, e o último pensamento coerente que tive foi que gostei do sabor da sua pasta de dentes.






[ continua... ]



naylaelric@hotmail.com


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